Publicada DC 17/07/08 foto Júlio Cavalheiro/DC
A casa amarela, bem conservada, ainda guarda os traços da colonização açoriana. O velho balcão, entre a entrada e a banca de sapateiro, durante muitos anos nunca era visto desocupado: se, às vezes, era motivo de descanso, às vezes era motivo de um bom papo, tendo como figura principal um senhor paraguaio de 68 anos, chamado Silvestre Britez.

Por mais de uma década, essa pequena oficina de calçados, na Rua Lauro Linhares, no Bairro Trindade, na Capital, é o palco de Britez.Ali, ele contava e ainda conta toda a sua história de vida, memórias alegres e tristes, de um tempo que não volta mais. Desde quando chegou ao Brasil, há mais de meio século, Silvestre protagonizou histórias dignas das epopéias gregas. Refugiado de guerra, quando criança foi vendido para estrangeiros.- Um senhor caminhoneiro, em Foz do Iguaçu (PR), que entregava madeira, me convidou para trabalhar, mas eu era muito criança. Fui com ele, e de repente estava preso numa fazenda, vigiada por capangas com espingardas - rememora.
Silvestre foi salvo por um alemão que conhecia bem a fronteira entre o Brasil e o Paraguai. Com ele aprendeu o ofício de sapateiro em Santa Maria (RS), no final da década de 1960. A família que o "adotou" tinha o sobrenome Weber.- Eles me ensinavam apenas uma ou duas vezes, e cada par de sapatos que eu não conseguia fazer, eu tinha que pagar - conta.Ainda no Rio Grande do Sul, conheceu sua primeira esposa, Celi Matos Oliveira, com quem teve cinco filhos. Trabalhou durante algum tempo no Exército, na sapataria dos militares, confeccionando coturnos e botas.
Anos depois, Silvestre casou-se novamente, com Joana Scapani, gerando mais quatro filhos. Com nove filhos para criar, mudou-se para Florianópolis, em 1986, onde abriu um negócio próprio: a Sapataria Britez.Ele não tinha como contratar funcionários e decidiu ensinar aos filhos a sua profissão, experiência que deu certo. No auge do negócio, Britez lembra que entre os clientes mais importantes estava o ex-governador do Estado Paulo Afonso Vieira.Com toda a família envolvida, a sapataria deu a Silvestre a oportunidade de educar os filhos.
Atualmente, duas filhas estão morando nos Estados Unidos. Além dos filhos Everton e Uzielita, o neto Maike também está aprendendo o ofício do avô, mantendo a tradição do ofício dentro da família.
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