Trim, trim, trim, trim, ah! maldito despertador! Parece que foi agora que deitei. Viro-me para o lado, abro apenas um olho e vejo que ainda são quinze pras sete. Vou dormir mais cinco minutinhos... Quer saber de uma coisa, não vou trabalhar hoje não. Segunda-feira, ônibus lotado, trânsito, fila, congestionamento... Chega! Decidi, não vou trabalhar, vou fugir dessa loucura de cidade grande, pelo menos hoje.
Mas para onde vou? – Aham, já sei: o sítio do vovô. Quanta saudade... Cheiro de terra molhada, estrada empoeirada, bichos, rio, hum... O torresmo, tantas saudades. Lembro-me como se fosse hoje: a velha rodoviária de Lages, eu, minha mãe e meus irmãos indo para o sítio. Aquela rodoviária era muito engraçada. Tinha umas escadas meio suspeitas, pessoas indo e vindo, de todos os lados. Pergunto a ela se este é o ônibus certo, ela com a cabeça responde que sim, e corro em disparada para o interior do carro para assegurar minha poltrona na janela. E de repente o velho Volkswagen treme e, o condutor dá sinal que uma incrível viagem estar apenas começando.
Se existe um lugar encantado no mundo este é lugar é ao planalto serrano catarinense. Terra de antigos tropeiros, índios, bugres... Pela janela vejo o sol, as nuvens que brincam com as formas de animais. Sério, vocês não acreditam? É simples, basta olhar para o céu e deixar a imaginação te levar. Avisto as árvores típicas da região, animais no campo. O sítio fica longe, para chegar precisa subir e depois descer bastante. No alto do morro minha mãe nos mostra a casa do vovô. Eu vejo apenas umas pequenas luzes, que do alto parecem mais com vaga-lumes soltos pelo campo. O velho Volks desce devagar a velha estrada que corta em “S” o morro. Esse é o momento certeiro para colocar a cabeça para fora e sentir a leve brisa nos recepcionando. O motorista vai parando o ônibus, finalmente estamos chegamos.
Em meio à poeira e à fumaça do cano de descarga (que não é sadio, mas é inesquecível), vejo por debaixo do velho ônibus a casinha dos meus avós, a casa onde minha mãe nasceu e foi criada. Logo de cara é um tal de “tarde sô”, respondido com “tarde sá". De longe avisto aquele senhor moreno, com cabelos e barba branca e aquele sorriso de sempre. Algumas vezes peguei minha mãe conversando com minhas tias sobre o vovô, de como ele era bravo, quem sabe isso deve ser coisa do sangue bugre que correria em suas veias. – Benção vovô.
O meu avô se chamava Hermâncio, tinha um pedaçinho de terra lá em Petrolândia, onde também tinha um botequinho. E é por este boteco que entramos. Sinto o cheiro das cachaças do alambique, mas o que realmente me desperta atenção é a doceira sobre o balcão. Como de costume ganho aquele doce que para mim era o melhor do mundo. No interior da casa encontro minha Vó Landa, entretida nos seus afazeres, cozinhando no fogão à lenha – Benção Vovó.
Depois de instalados vamos brincar. Eu, meus irmãos e meus tios que são poucos anos mais velhos. No terreiro avisto inúmeras galinhas ciscando, pintinhos piando. Ah que saudade disso! No fundo vejo o porco no chiqueiro engordando para o Natal e o rio que corre ao fundo do sítio. Esse merecia uma crônica especial: o rio que corre no fundo do sítio é tão longo que mal consigo ver o fim. A água fria, mas doce, uma delícia.
No final das tardes, como de costume, meus tios iam buscar leite no sítio vizinho (no interior a comercialização de produtos é um pouco diferente: a minha avó trocava algumas dúzias de ovos por leite). Essa era a oportunidade de conhecer as redondezas da pequena e pacata Petrolândia. Descendo pelo rio cortando a cidade reparo em cada detalhe, é como se a minha mente fotografasse cada imagem para sempre. Apanhamos três litros de leite e voltamos pela estrada empoeirada que começara a escurecer e ficar assombrada, segundo Marcos e Marcio. Entre o cair da noite e anoitecer, entre a cantoria dos sapos misturado com a sinfonia visual dos vaga-lumes, chegamos ao sítio anestesiados com a sutileza e tamanha riqueza dos pequenos detalhes. O cheiro é um dos melhores. Comida feita no fogão à lenha.
Depois de nadar, correr, brincar e jantar, a vovó agora prepara o nosso banho. Água na chaleira, água na bacia. – Vóó tá fria! E com carinho ela coloca um pouquinho mais de água quente. Ufa, que dia. Sinto-me cansado, parece que fiz mais de mil coisas em um dia. Já ta me batendo um soninho e vou encostando o rosto no travesseiro, que é para sentir aquele cheirinho de marcela (vovó sempre fazia os travesseiros ficarem mais leves e perfumados), e devagarzinho meus olhos vão fechando e eu sinto que estou em paz. Trim, trim, trim, trim – Caramba! Já são oito da manhã. Tô atrasado para o trabalho, que cinco minutinhos hein! Levanto rapidinho, mal lavo o rosto e corro para o ponto... ônibus lotado, fila, trânsito, ah maldito despertador!!